sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

BARRIGA

Ricardo saiu cedo para uma viagem na carona de um colega e quando retornou já eram quase 5 horas da tarde. Viagem cheia de reuniões e eu tinha certeza de que ele não teria tempo de almoçar.

Tínhamos marcado encontro para buscá-lo em uma padaria e quando o peguei perguntei-lhe se ele havia almoçado, pois em seguida iria para outra reunião e voltaria somente tarde da noite. Respondeu que tinha comido um quiche de alho-poró. Sabedora de que não seria suficiente para saciar a fome do grandão, insisti em perguntar se ele não queria almoçar antes de sair novamente, ao que respondeu da seguinte maneira:

- Não, amor, comi agora, olha só como está minha barriga! (para quem não conhece o Ricardo, explico que está alguns quilos acima do peso).

Em seguida, André, do banco de trás do carro, afirma num tom lógico:

- Não mudou nada...

Muito perspicaz!

foto: coletada na internet (desconheço autoria)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

HISTÓRIAS DE HOSPITAL

Eu já suspeitava que tivesse amigos mais chegados que um irmão. Nesses últimos dias só comprovei minhas suspeitas.

Caindo um pouco no comum, amigo é aquele com que podemos contar em todos os momentos, é aquele que mora do lado esquerdo do peito, aquele que entra em nossa vida e só acrescenta mesmo brigando com a gente, aquele que zela por nós, chora conosco, ri e apoia nossas decisões mesmo que não sejam as melhores a serem tomadas. Empresta-nos o ombro para chorar e nos escuta sem críticas, mas aconselha com amor quando necessário. É muito bom ter amigos.

Há algum tempo não estava me sentindo bem. Enjoo constante, vertigens insistentes, sonolência, como tenho hipotireoidismo pensei que minha tireoide estava descompensada e que a causa de todo aquele mal estar poderia ser por causa disso. Estava para marcar uma consulta com o endocrinologista quando repentinamente passei muito mal, com dores abdominais muito intensas que irradiavam para as costas e não passava por nada. Meu estômago não aceitava nenhum tipo de alimento ou líquido. Passei uma noite de cão, sem dormir andando pela casa feito um zumbi gemendo e me segurando para não urrar de dor. Finalmente amanheceu e me rendi às dores me encaminhando para o hospital. Parecia uma mulher em trabalho de parto. A cada curva, cada imperfeição no asfalto eu achava que tudo dentro de mim iria virar suco. Chegando ao hospital os minutos para realização do cadastro de atendimento pareciam uma eternidade. Não tinha posição em que me sentisse confortável. Só conseguia me sentir 1% melhor se me encurvasse mesmo de pé e me apoiasse em alguma mesa. Levaram-me para atendimento e logo depois da avaliação clínica do Dr. Yulsef, coletaram material para exame de sangue e fui medicada para aliviar as dores. Ufa... me senti no paraíso e dormi. Assim que o resultado do exame chegou, soubemos a razão de tanto sofrimento: Pancreatite, restava saber se era aguda leve, média ou crônica. Graças à Deus que tratava-se de uma pancreatite aguda leve.

Mas por que, de onde surgiu essa tal pancreatite? Não pensem vocês que foi por causa de algumas cervejinhas a mais não, nem bebo. Acontece que desenvolvi alguns cálculos na vesícula biliar e um deles entupiu o "encanamento" todo, fazendo com que o pâncreas continuasse a fornecer enzimas que não foram devidamente encaminhadas para o duodeno. O pâncreas secreta enzimas digestivas para o intestino delgado através de um canal chamado de duto pancreático. As enzimas são responsáveis para a boa digestão dos alimentos. O pâncreas também libera os hormônios que ajudam o corpo a utilizar a glicose que ele toma da comida para transformar em energia. Contudo, as enzimas digestivas não se tornam ativas até que elas atinjam o intestino delgado, onde começam a digerir os alimentos. Mas se estas enzimas tornarem-se ativas dentro do pâncreas, elas iniciam a "digestão" do pâncreas por si próprio (autodigestão), inflamando o órgão e podendo também alcançar outros órgãos caso não proceda tratamento imediato. Por isso as náuseas e as fortes dores no alto abdômen e irradiando para as costas, pois o pâncreas se localiza por detrás do estômago e intestino.

Procedimento: internação hospitalar imediata, jejum absoluto e muito tramal, dipirona e soro na veia para hidratar o pâncreas e cessar seu “trabalho”. Assim fiquei por três a quatro dias e na medida em que o quadro clínico ia se estabilizando, a introdução de alimentos ia acontecendo de forma muito lenta passando para uma dieta líquida (nunca comi tanta gelatina na minha vida), pastosa, branda e geral (com arroz, feijão batata e macarrão). Bem nada podia fazer senão aproveitar minha estadia no hospital e tentar pensar que estava ali para descansar, aproveitar o SPA e sair com alguns quilos a menos que não fazem falta nenhuma.

Mesmo ciente de que todo o tratamento era necessário, não pude evitar meu desassossego com minha família, minha casa e meu cachorro que deixei para trás sem aviso prévio. Graças à grande generosidade de minhas irmãs Beatriz e Cristina, que não titubearam em se prontificar para cuidar de meu filho André e à minha querida enteada Luciana que cuidou de minha casa, minhas roupas e do maridão, eu fiquei mais tranquila, só fiquei preocupada com meu schnauzer Bóris que anda atrás de mim o dia inteiro. Este não conseguiu compreender a minha ausência e, carente, não comia e nem bebia água esperando meu retorno. A fome começou a falar mais alto, mas não se alimentava como costumeiramente.

Ali, no hospital, permaneci doze longos dias. Conheci todos os plantões da enfermagem, da copa e da faxina. Sempre que alguém entrava no meu quarto quer para ministrar medicamentos, trazer minha refeição ou realizar a limpeza do quarto, alguém espantado perguntava: “Você ainda está aqui?”

Não fosse pelas palavras de apoio de amigos e familiares e de suas visitas, eu me sentiria muito só. Mesmo que a distância geográfica de alguns deles fosse impraticável uma visita, recebi telefonemas e emails que me confortavam muito. Na medida em que os dias iam passando eu mandava notícias a todos que me acompanharam carinhosamente todos os dias de internação. Como eu não podia comer, tratei de devorar palavras dos meus fieis companheiros livros que levei e que ganhei de minha prima querida Aida. Passei meus dias em meditação e resignação sem me revoltar com meu estado quase prisional, mas procurando algum proveito daquela situação. Pude conversar com pessoas enfermas que precisavam de ânimo e procurei levar meu bom humor para aquelas vidas. Muitas histórias engraçadas eu vivi ali dentro, porém houve um único dia em que realmente fiquei triste e deprimida, pois sentia falta do cheiro da minha casa, do abraço do marido, da alegria do meu filho, da festa do meu cachorro e do macio aconchegante da minha cama e travesseiros e queria me ver livre daqueles canos do soro, das agulhadas das coletas de material para exame e queria trocar o verde da parede do quarto pelo verde das árvores, ver gente saudável,  sentir a brisa tocar suave no meu rosto despenteando meus cabelos, ter o prazer do sol esquentar minha pele. São sensações tão pequenas, necessidades tão básicas, mas que definitivamente não vivemos sem. Realmente não vivo entre quatro paredes, neste dia não escondi meu choro e as lágrimas imediatamente vieram aos meus olhos e escorreram pela minha face e não encontrei ninguém para abraçar. Foi quando recebi a visita do Rev. Sérgio que me trouxe palavras de conforto através do texto bíblico: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” Romanos 8:28.

De tudo só posso tirar três lições: 

1 – Nada é eterno, o pesadelo terminou e após doze dias de internação já estou em casa, porém ainda com muito cuidado com minha alimentação, portanto, nem adianta me convidar para um churrasquinho ou uma feijoada, que, gentil e educadamente, terei que declinar, mas se forem fazer um franguinho ou peixinho grelhado acompanhado com muito legume e verdura e com direito a uma sobremesa leve como saladinha de frutas, eu topo!!

2 – Este quadro serviu também para que eu revisse toda a minha alimentação e passasse a balancear melhor os alimentos.

3 – Vi que não estou sozinha e a torcida por mim foi grande. Obrigada, meus queridos amigos, que se mantiveram em oração e pensamento positivo para meu pronto restabelecimento. Senti todo o carinho de vocês através das palavras de encorajamento, porque ambiente hospitalar é estéril demais, muito embora também tenha recebido carinho e atenção por parte de todo o corpo de enfermeiros, copeiras e faxineiros daquele lugar. 

Agradeço imensamente pelos cuidados do Dr. Yulsef, que muito preocupado com minha saúde, não mediu esforços para minha internação e diariamente esteve atento ao desenvolvimento de meu quadro clínico me mantendo sempre informada com o que estava acontecendo e me posicionando a cada procedimento que estaria por adotar. Próximo passo é providenciar a cirurgia da retirada da vesícula, tão logo seja possível o procedimento.

Não posso deixar de registrar um agradecimento especial ao maridão que com toda paciência e dedicação não poupou esforços para que eu tivesse o melhor atendimento.

Agora é cuidar do corpo e da alma, deixando as manias e costumes não tão saudáveis de lado e correr para o abraço que estou morrendo de saudades de dividir meus escritos com todos vocês!!

"Cada dia é uma pequena vida" Quinto Horácio Flaco

Beijos mil!!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ENQUANTO HOUVER MÚSICA



Música é um bálsamo para a alma:
Apazígua os conflitos;
Dá leveza ao semblante;
Acalma o aflito;
Remodela o corpo;
Unifica a linguagem;
Dá colorido à vida.
Enquanto houver música,
Minha mente será uma eterna partitura.

foto: coletada da internet (desconheço a autoria)

domingo, 12 de janeiro de 2014

PEGA-PEGA

Sempre fui muito moleca, alegre e brincalhona. Quando Felipe nasceu, voltei a ser criança, mas agora com mais responsabilidade. "Brinquei de boneca", de novo, nos cuidados do meu filho amado, com uma atenção de uma leoa. Cuidei daquele bebê com toda dedicação do mundo e ele foi crescendo e com este crescimento as "brincadeiras" ficaram diferentes. Chutar bola, lançar carrinho, brincar de lutinha e montinho em cima de minha cama eram atividades corriqueiras. Era uma gargalhada só.

Nosso apartamento era pequeno, mas abrigava bem nossa restrita família de três membros (pai, mãe e filho). Em dias mais frios e de chuva, ficávamos dentro do apartamento brincando. Num dia frio, Felipe aprontou uma e saiu correndo e eu atrás dele. Ele, mais esperto e mais ágil que eu conseguia se esquivar, até que saiu em disparada pelo corredor em direção à sala e, descalço, topou o dedinho do pé direito na perna de uma cadeira. Ele deu um grito de dor. Quando cheguei perto dele e pedi para ver o pé, levei um susto. Seu dedinho fazia um ângulo de 90° com seu pé. Fechei os olhos, respirei fundo, contei sei lá até quanto e quando minha respiração voltou ao normal, virei para ele e disse calmamente: "Vá tomar um banho rápido que vou levá-lo para o hospital". Assim ele fez.

Chegando ao hospital, fiz a ficha e logo foi atendido. O médico pediu uma radiografia. Assim que a radiografia ficou pronta, levamos para o médico que, coçando a cabeça falou. "Vamos ter que colocar o dedo no lugar e depois imobilizar, pois fraturou".

Ai, ai, ai... Felipe virou para mim e perguntou: "Mãe, vai doer?" Eu nunca fui de mentir, muito menos para meus filhos, então respondi: "Vai, pode gritar à vontade e segura na minha mão".

O médico, então chamou dois ajudantes para conter Felipe que contava na época com oito anos de idade - um rapaz encorpado e forte - e começou o procedimento. Felipe deitado olhava para mim e não queria segurar minha mão, queria segurar um objeto qualquer que não me lembro do que era, mas insisti que segurasse minha mão. O doutor, então, contou até três e colocou seu dedo no lugar. Imediatamente Felipe soltou um berro ensurdecedor que daria para um otorrinolaringologista fazer exame das amígdalas sem o abaixador de língua. Deu para ver, direitinho, a úvula (campainha da boca) balançando, cena digna das melhores animações. Juntamente com o berro, Felipe apertou minha não com tanta força que me lembro da dor até hoje.

Quando levantei minha cabeça e olhei para a porta da sala de sutura, vi dezenas de pessoas assustadas olhando para dentro, nem posso imaginar o que elas estavam pensando. Felipe me olhava com os seus olhos vermelhos de dor e raiva da dor que sentia que fazia com que sua íris ficasse mais verde ainda. Foi assustador.

Terminado o procedimento, ele apenas me disse: "Eu falei para você que não queria segurar a sua mão". Sinceramente não entendi por que, acho que ele queria me ver longe dali.

Fomos embora e durante algum tempo precisei auxiliá-lo a se locomover, pois não poderia colocar o pé no chão.

Mas tiramos uma lição de tudo isso. Pega-pega se brinca em espaços livres, se for brincar de pega-pega com seu filho, tire as cadeiras da sala... tenho dito!!

foto: coletada da internet (desconheço autoria)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

NATAL ORTODOXO

Hoje comemoramos o Natal Ortodoxo.


Era 1582, ano em que o Papa Gregório XIII, decidindo acertar o passo dos dias com o sol, realizou uma reforma no calendário, deixando de fora quatorze dias do calendário Juliano adotado pelo Imperador Romano Julio Cesar. O calendário gregoriano passou a ser adotado por todo o mundo cristão, exceto pela Igreja Ortodoxa que o rejeitou e manteve seu calendário Juliano apenas para as comemorações religiosas.

Mas por que não aceitaram? A história nos conta que até o século XI, católicos romanos e ortodoxos têm uma história comum com a fé alicerçada na Igreja de Jesus Cristo. No século IV se deu o Primeiro Conselho de Niceia, reunião de bispos cristãos, a fim de obter a primeira tentativa de consenso através de uma assembleia representando toda a cristandade, onde foram discutidas questões doutrinárias. Como resultado desta assembleia, ficou estabelecida a Pentarquia, forma pela qual a igreja cristã passou a ser organizada por cinco patriarcados: Jerusalém, Antiorquia, Alexandria, Constantinopla e Roma (o antigo Patriarcado), sendo o Bispo de Roma considerado o primeiro dentre os patriarcas. Porém, com a transferência da residência imperial romana, juntamente com o senado, para Constantinopla alguns anos depois, o Bispo de Roma perdeu a influência nas igrejas orientais, sendo beneficiado o Bispo de Constantinopla.

Dentre os diversos fatores que fizeram com que Roma e os demais patriarcados se distanciassem, fazendo com que o Oriente e Ocidente deixassem de estar sob o mesmo governo, podemos mencionar a divisão do Império Romano, com sua consequente queda e a tentativa fracassada do Imperador Justiniano I em reunificar o império. Aliada à ascensão do Islã que dificultou as trocas econômicas por via marítima entre Império Bizantino (língua grega) e o Ocidente (língua latina), a unidade cultural entre os dois mundos deixou, aos poucos, de existir. Já no século VIII, Roma, sob a proteção do Império Carolíngio, as duas Igrejas, de Roma e Constantinopla, se distanciaram estabelecendo impérios distintos, fortes e autossuficientes, cada um deles com sua própria tradição e cultura. Por conta disso, as divergências doutrinárias entre Ocidente e Oriente foram inevitáveis, principalmente pela inclusão pela Igreja Latina da cláusula de filioque no Credo de Niceia (não encontrada nos textos gregos) que era considerada herética pelos ortodoxos.

Além da adoção gradativa de rituais diferentes, Roma pretendeu exercer uma autoridade incontestável sobre todo o mundo cristão, enquanto que Constantinopla apenas delegava à Roma uma posição de honra. Com tanta disputa aconteceu, no ano de 1504, a ruptura entre a Igreja Católica do Ocidente e a Igreja Ortodoxa do Leste, o chamado Cisma do Oriente.

Estabelece-se, então a Igreja Ortodoxa do Leste, porém com formato diferente dos antigos Patriarcados, composta por outras dez igrejas autocéfalas (com administração própria) que não aceitam a autoridade papal. E são elas: Albânia, Bulgária, Chipre, Geórgia, Polônia, Rússia, Romênia, Sérvia, Sinai e Tchecoslováquia.

Mas então, uma vertente do cristianismo comemora o nascimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo atrasado? Não!! De forma alguma. Este "atraso" se dá única e exclusivamente por conta dos calendários adotados pelas Igrejas do Ocidente e Oriente. Na verdade comemora-se no mesmo dia, sendo que no calendário Juliano conta com mais 14 dias.

Mas de tudo isso o que realmente importa é parabenizar, cada um à sua maneira, àquele que veio ao mundo, mesmo sendo Deus, em forma humana e que revolucionou o pensamento da época pregando seu amor.

Mais uma vez, respeitando meus amigos ortodoxos, UM FELIZ NATAL e que Cristo esteja abençoando seus lares e estabelecendo morada em seus corações.



foto: Advento
        Natividade
        ícone da escola de Pskov, século XVI

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

TERRORISTAS

Vez em quando vamos a São Paulo para resolver algum problema ou visitar alguém. Há dois anos, estávamos lá para pegar uma documentação na antiga escola de André. Ao pegarmos o caminho de volta para Sorocaba, descemos a Av. Ceci e passamos pelos fundos do Clube Sírio Libanês. André sempre atento a tudo ao seu redor leu algo no topo do edifício do clube e logo me perguntou:

- Mãe, o que é Sírio?

- É o nome que se dá ao povo que nasceu na Síria, mas este que você está lendo é o nome do Clube Sírio Libanês, André.

- Ah, então aí deve ter muitos terroristas.

Ele andava vendo muito noticiário...

foto: coletada da internet (desconheço autoria)