terça-feira, 28 de janeiro de 2014

HISTÓRIAS DE HOSPITAL

Eu já suspeitava que tivesse amigos mais chegados que um irmão. Nesses últimos dias só comprovei minhas suspeitas.

Caindo um pouco no comum, amigo é aquele com que podemos contar em todos os momentos, é aquele que mora do lado esquerdo do peito, aquele que entra em nossa vida e só acrescenta mesmo brigando com a gente, aquele que zela por nós, chora conosco, ri e apoia nossas decisões mesmo que não sejam as melhores a serem tomadas. Empresta-nos o ombro para chorar e nos escuta sem críticas, mas aconselha com amor quando necessário. É muito bom ter amigos.

Há algum tempo não estava me sentindo bem. Enjoo constante, vertigens insistentes, sonolência, como tenho hipotireoidismo pensei que minha tireoide estava descompensada e que a causa de todo aquele mal estar poderia ser por causa disso. Estava para marcar uma consulta com o endocrinologista quando repentinamente passei muito mal, com dores abdominais muito intensas que irradiavam para as costas e não passava por nada. Meu estômago não aceitava nenhum tipo de alimento ou líquido. Passei uma noite de cão, sem dormir andando pela casa feito um zumbi gemendo e me segurando para não urrar de dor. Finalmente amanheceu e me rendi às dores me encaminhando para o hospital. Parecia uma mulher em trabalho de parto. A cada curva, cada imperfeição no asfalto eu achava que tudo dentro de mim iria virar suco. Chegando ao hospital os minutos para realização do cadastro de atendimento pareciam uma eternidade. Não tinha posição em que me sentisse confortável. Só conseguia me sentir 1% melhor se me encurvasse mesmo de pé e me apoiasse em alguma mesa. Levaram-me para atendimento e logo depois da avaliação clínica do Dr. Yulsef, coletaram material para exame de sangue e fui medicada para aliviar as dores. Ufa... me senti no paraíso e dormi. Assim que o resultado do exame chegou, soubemos a razão de tanto sofrimento: Pancreatite, restava saber se era aguda leve, média ou crônica. Graças à Deus que tratava-se de uma pancreatite aguda leve.

Mas por que, de onde surgiu essa tal pancreatite? Não pensem vocês que foi por causa de algumas cervejinhas a mais não, nem bebo. Acontece que desenvolvi alguns cálculos na vesícula biliar e um deles entupiu o "encanamento" todo, fazendo com que o pâncreas continuasse a fornecer enzimas que não foram devidamente encaminhadas para o duodeno. O pâncreas secreta enzimas digestivas para o intestino delgado através de um canal chamado de duto pancreático. As enzimas são responsáveis para a boa digestão dos alimentos. O pâncreas também libera os hormônios que ajudam o corpo a utilizar a glicose que ele toma da comida para transformar em energia. Contudo, as enzimas digestivas não se tornam ativas até que elas atinjam o intestino delgado, onde começam a digerir os alimentos. Mas se estas enzimas tornarem-se ativas dentro do pâncreas, elas iniciam a "digestão" do pâncreas por si próprio (autodigestão), inflamando o órgão e podendo também alcançar outros órgãos caso não proceda tratamento imediato. Por isso as náuseas e as fortes dores no alto abdômen e irradiando para as costas, pois o pâncreas se localiza por detrás do estômago e intestino.

Procedimento: internação hospitalar imediata, jejum absoluto e muito tramal, dipirona e soro na veia para hidratar o pâncreas e cessar seu “trabalho”. Assim fiquei por três a quatro dias e na medida em que o quadro clínico ia se estabilizando, a introdução de alimentos ia acontecendo de forma muito lenta passando para uma dieta líquida (nunca comi tanta gelatina na minha vida), pastosa, branda e geral (com arroz, feijão batata e macarrão). Bem nada podia fazer senão aproveitar minha estadia no hospital e tentar pensar que estava ali para descansar, aproveitar o SPA e sair com alguns quilos a menos que não fazem falta nenhuma.

Mesmo ciente de que todo o tratamento era necessário, não pude evitar meu desassossego com minha família, minha casa e meu cachorro que deixei para trás sem aviso prévio. Graças à grande generosidade de minhas irmãs Beatriz e Cristina, que não titubearam em se prontificar para cuidar de meu filho André e à minha querida enteada Luciana que cuidou de minha casa, minhas roupas e do maridão, eu fiquei mais tranquila, só fiquei preocupada com meu schnauzer Bóris que anda atrás de mim o dia inteiro. Este não conseguiu compreender a minha ausência e, carente, não comia e nem bebia água esperando meu retorno. A fome começou a falar mais alto, mas não se alimentava como costumeiramente.

Ali, no hospital, permaneci doze longos dias. Conheci todos os plantões da enfermagem, da copa e da faxina. Sempre que alguém entrava no meu quarto quer para ministrar medicamentos, trazer minha refeição ou realizar a limpeza do quarto, alguém espantado perguntava: “Você ainda está aqui?”

Não fosse pelas palavras de apoio de amigos e familiares e de suas visitas, eu me sentiria muito só. Mesmo que a distância geográfica de alguns deles fosse impraticável uma visita, recebi telefonemas e emails que me confortavam muito. Na medida em que os dias iam passando eu mandava notícias a todos que me acompanharam carinhosamente todos os dias de internação. Como eu não podia comer, tratei de devorar palavras dos meus fieis companheiros livros que levei e que ganhei de minha prima querida Aida. Passei meus dias em meditação e resignação sem me revoltar com meu estado quase prisional, mas procurando algum proveito daquela situação. Pude conversar com pessoas enfermas que precisavam de ânimo e procurei levar meu bom humor para aquelas vidas. Muitas histórias engraçadas eu vivi ali dentro, porém houve um único dia em que realmente fiquei triste e deprimida, pois sentia falta do cheiro da minha casa, do abraço do marido, da alegria do meu filho, da festa do meu cachorro e do macio aconchegante da minha cama e travesseiros e queria me ver livre daqueles canos do soro, das agulhadas das coletas de material para exame e queria trocar o verde da parede do quarto pelo verde das árvores, ver gente saudável,  sentir a brisa tocar suave no meu rosto despenteando meus cabelos, ter o prazer do sol esquentar minha pele. São sensações tão pequenas, necessidades tão básicas, mas que definitivamente não vivemos sem. Realmente não vivo entre quatro paredes, neste dia não escondi meu choro e as lágrimas imediatamente vieram aos meus olhos e escorreram pela minha face e não encontrei ninguém para abraçar. Foi quando recebi a visita do Rev. Sérgio que me trouxe palavras de conforto através do texto bíblico: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” Romanos 8:28.

De tudo só posso tirar três lições: 

1 – Nada é eterno, o pesadelo terminou e após doze dias de internação já estou em casa, porém ainda com muito cuidado com minha alimentação, portanto, nem adianta me convidar para um churrasquinho ou uma feijoada, que, gentil e educadamente, terei que declinar, mas se forem fazer um franguinho ou peixinho grelhado acompanhado com muito legume e verdura e com direito a uma sobremesa leve como saladinha de frutas, eu topo!!

2 – Este quadro serviu também para que eu revisse toda a minha alimentação e passasse a balancear melhor os alimentos.

3 – Vi que não estou sozinha e a torcida por mim foi grande. Obrigada, meus queridos amigos, que se mantiveram em oração e pensamento positivo para meu pronto restabelecimento. Senti todo o carinho de vocês através das palavras de encorajamento, porque ambiente hospitalar é estéril demais, muito embora também tenha recebido carinho e atenção por parte de todo o corpo de enfermeiros, copeiras e faxineiros daquele lugar. 

Agradeço imensamente pelos cuidados do Dr. Yulsef, que muito preocupado com minha saúde, não mediu esforços para minha internação e diariamente esteve atento ao desenvolvimento de meu quadro clínico me mantendo sempre informada com o que estava acontecendo e me posicionando a cada procedimento que estaria por adotar. Próximo passo é providenciar a cirurgia da retirada da vesícula, tão logo seja possível o procedimento.

Não posso deixar de registrar um agradecimento especial ao maridão que com toda paciência e dedicação não poupou esforços para que eu tivesse o melhor atendimento.

Agora é cuidar do corpo e da alma, deixando as manias e costumes não tão saudáveis de lado e correr para o abraço que estou morrendo de saudades de dividir meus escritos com todos vocês!!

"Cada dia é uma pequena vida" Quinto Horácio Flaco

Beijos mil!!

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